Luis Nassif: O desastre da alta da Selic

                            Luiz Nassif e Murila Reis FOTO Alexandro Martins


do Blog do Luis Nassif  
Os descaminhos da política monetária brasileira são fáceis de demonstrar.
A taxa Selic impacta dois clientes distintos. O primeiro, os demandantes de crédito em reais; o segundo, os investidores e captadores de ativos em dólares.
No mundo dos reais, o custo do crédito oscila entre 40% a 200% ao ano; no mundo dos dólares, a 5%, 8% ao ano. Nas aplicações, o mundo do real remunera a 8 a 15% ao ano; o dos dólares a 2%.
Essa é a causa da disfunção da política monetária brasileira, quando as taxas chegaram a patamares malucos de dois dígitos. Qualquer mexida na Selic tem efeito ínfimo sobre o crédito e a demanda interna; e efeitos avassaladores sobre o fluxo de dólares.
Suponha um bem de R$ 1.000,00, financiado por 24 meses a taxas de 4% ao mês. O valor da prestação será de R$ 65,59 mensais. Com mais 0,25% de custo de captação, esse valor subirá para R$ 65,73 mensais. Desestimulará algum financiamento? É evidente que não.
Na outra ponta, 0,25% – mesmo em cima de uma maluquice de 12% ao ano – é um estímulo a mais para a entrada de dólares. Não apenas isso. Mesmo sendo menos do que o mercado fingiu que seria, é sinal de que o Banco Central não pretende deter a apreciação do real. É gasolina na fogueira da especulação com o real.
Esta semana estive com um conhecido, grande investidor.
Ele recebeu uma oferta do Credit Suisse para uma aplicação em dólares. Funciona assim:
1.     Se o dólar continuar caindo ele ganha até 23% ao ano. O que passar disso é ganho do Credit Suisse.
2.     Se o dólar se valorizar, o banco garante ao menos 6% de remuneração nominal para sua aplicação.
Na conta dos vendedores do banco, a aposta é que o dólar chegue a R$ 1,32 este ano.
Sabe o que significa?
1.     O sujeito aplica US$ 1 milhão. Pelo dólar a R$ 1,56, converte em R$ 1.560.000,00
2.     Aplica na Selic a 12,5%.  Em um ano, o investimento sobe para R$ 1.755.000,00.
3.     Daqui um ano, se o dólar estiver de fato em R$ 1,32, ele converterá o saldo em US$ 1.329.545. O ganho será de 33% em um ano.
Não se trata de mero exercício matemático. Trata-se do raciocínio que está embalando todo o mercado a manter a aposta na apreciação do real.
O custo que o BC infringiu ao país com essa alta de 0,25 na Selic não é apenas o do impacto direto no custo da dívida. É a manutenção da fogueira acesa das apostas contra o câmbio, é a aceleração do desmonte das indústrias, o aumento do custo de ampliação das reservas cambiais.



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